Se existe uma coisa capaz de estragar o meu humor é o tal atendimento preferencial. Para começo de conversa acho um absurdo você precisar fazer uma lei obrigando os estabelecimentos (e as outras pessoas) a prestarem atendimento prioritário a idosos, pessoas com dificuldades de locomoção etc. Deveria ser questão de educação ceder o seu lugar a alguém com dificuldades, respeito ao cliente proporcionar atendimento rápido a todos os clientes, jovens ou idosos, saudáveis ou não.
Mas como educação é mercadoria em falta no país, independente de renda, cor ou credo, criam uma lei para obrigar a prestação de atendimento preferencial a determinadas pessoas. A lei, diga-se de passagem, obriga a prestação de um serviço, mas respeito é algo que não se obriga. Trata-se de questão de educação. Ou você tem respeito ou não tem.
Então o que algumas empresas fazem? Criam a tal fila das prioridades. Mas alocam apenas um funcionário para cuidar dos atendimentos. Resultado: a fila especial demora mais do que a fila normal. E, enquanto aguardo na fila, presencio uma cena surreal: a funcionária da companhia aérea tenta arrancar à força a velhinha da fila “normal”, que retruca: “Eu não vou ficar naquela fila enorme, com uma atendente e um monte de gente lerda”. A mocinha não se conforma e perde um tempo enorme tentando, inutilmente, retirar a velhinha da fila.
E quando o atendimento das prioridades funciona, sempre tem um usuário espertinho para fazer os outros de bobos. Como a mulher que estava com uma criança de colo na fila do banco. Ele passa à frente de todo mundo e, ao chegar ao caixa o marido se aproxima, segura a criança e a bolsa da mulher, e então sai da agência enquanto ela paga as contas. E essa pessoa iluminada ainda acha ruim quando algumas pessoas menos contidas xingam a mãe dela. Ou a senhora de muletas que encontrei no metrô esta semana. Não entendi bem para que muletas se ela usava uns sapatos plataforma de acrílico de dois metros de altura. Daqueles que eu não tenho coragem de colocar no pé e cruzar o estacionamento do trabalho sem medo de quebrar o pé. E não vou nem entrar no mérito daqueles que, na cara dura, estacionam nas vagas reservadas a deficientes, idosos etc. Fico só imaginando se estas pessoas, que fazem de conta que nada é com elas, mais tarde não fazem parte daquele grupinho insuportável que enche a boca para dizer que “este país está perdido porque só tem político ladrão…” E se você tenta interpelá-las, reagem contando alguma história triste ou dizendo coisas como “é só dessa vez” ou “faço porque todo mundo faz”. E assim, esses pequenos desconhecidos, com suas condutas mesquinhas, contribuem diariamente para inviabilizar um país.
