Interludios

Julho 16, 2007

Duelo de Poesias

Arquivado em: Cotidiano, Poesia — by Bia @ 10:46 pm

Na lista de discussão da faculdade os meninos travaram um duelo de poesias. Foi mais ou menos assim…

O Felipe começou, acompanhado de Vinícius:

Para movimentar um pouco essas listas,
um pouco de bucolismo, inspiração de férias.

Soneto de intimidade
 Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma. 

O Thiago continuou, recorrendo a Drummmond:

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.”  

O Carlos rebateu com Álvaro de Campos:

 

Ó céu azul — o mesmo da minha infância

Eterna verdade vazia e perfeita!

Ó macio Tejo ancestral e mudo,

Pequena verdade onde o céu se reflete!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Com um não, mas dois trechos de Álvaro de Campos:

 

TRAPO (Álvaro de Campos)

O dia deu em chuvoso.

A manhã, contudo, esteve bastante azul.

O dia deu em chuvoso.

Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação!  Tristeza?  Coisa nenhuma?

Não sei: já ao acordar estava triste.

O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.

Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.

Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.

Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?

Dêem-me o céu azul e o sol visível.

Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.

Até amaria o lar, desde que o não tivesse.

Chego a ter sono de vontade de ter sossego.

Não exageremos!

Tenho efetivamente sono, sem explicação.

O dia deu em chuvoso.

Carinhos?  Afetos?  São memórias…

É preciso ser-se criança para os ter…

Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!

O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,

Polpa de fruta de um coração por comer…

Quando foi isso? Não sei…

No azul da manhã…

O dia deu em chuvoso.

Eu disse que eram uns fofos, e o Carlos, só para variar, mandou um poema fofo:

 DAS UTOPIAS (Mário Quintana)

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Aqui o espaço acabou, mas por lá o duelo continua… Morram de inveja!

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